segunda-feira, 22 de março de 2010

Poder, Política e Poesia

       É necessário que o poeta seja engajado politicamente. Ele não só é membro da sociedade, como também reconhece o fato de que Poesia na Política. Esta é um jogo de poder, permeado de ideais, paixões, interesses e artíficios,  e decide muitas vidas. A Política está intrinsicamente ligada à Humanidade, assim como a Arte.
      Além disso, é preciso lembrar a mais relevante semelhança entre essas duas sedutoras ninfas: ambas são instrumentos poderosos, que tanto podem significar opressão ou liberdade.  A Arte pode tanto difundir idéias como amor e igualdade social, como pode ser usada para convencer as massas de que o conformismo deve reinar, uma vez que a corrupção é inerente ao ser humano. A Política pode levar boas condições de vida à toda a sociedade, ou pode ser a ferramenta para manter o povo na pobreza e na ignorância. Cabe ao poeta e ao político utilizarem seus meios para propóstitos dignos.
   Venho aqui cumprir a minha obrigação, que me foi lembrada especialmente por ocasião da emenda Ibsen Pinheiro. Tal emenda propõe severa redução dos royalties recebidos pelos municípios e estados produtores de petróleo. O próprio Rio de Janeiro ficaria com sete bilhões a menos na sua receita, o que prejudicaria todo o Brasil. Esse estado é o segundo mais importante economicamente do país; suas indústrias e serviços empregam, direta e indiretamente, batalhões de pessoas. Com sete bilhões a menos, a economia fluminense não poderia se sustentar, como diversos especialistas já afirmaram, e isso se refletiria em uma grande crise nacional, cujo pior produto seria uma catastrófica onda de desemprego.
    Esse é o argumento mais importante socialmente, mas ainda há outros. Espero que o senado reflita sobre todas as perdas que aprovar a emenda Ibsen acarretará.
    Entretanto, não podemos só "esperar" que o governo perceba o absurdo dessa emenda. Temos de nos mobilizar para que isso aconteça, inclusive usando a Arte e a mídia. Por isso, deixo aqui um poema meu sobre Política:

Messias

Esperamos, contemplando o Universo,
decifrando, dos Planetas, os mistérios,
em nossos mundos, estáticos.
Esperamos que os Céus se abram,
que nossas Estrelas se renovem,
que venha a nós um Ser Iluminado.


O grande segredo não é olhar para o Infinito
não sejamos tão contemplativos
em relação a tudo.
Não aceitemos o que nos desagrada,
não honremos quem nos desacata,
mudemos o Mundo!


Não endeusemos um só indíviduo,
sejamos nós essas salvadoras divindades,
sejamos sagrados.
Em verdade, somos nós, o povo,
essas poderosas deidades.


Não se conformem! Vão às ruas!
Vamos todos juntos à luta!
À Justiça demos o sangue, o pranto e o coração!
E, mais tarde, com Glória, seremos recordados,
como heróis seremos relembrados,
pois todo o Homem é um ser movido à paixão!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um pouco de filosofia

Muitas pessoas discutem sobre a existência de um lugar ideal. Será que o Céu existe mesmo? Será que lá há lugar para nós? Aqui eu exponho a minha visão sobre o assunto, no poema "Cá dentro".

Cá dentro


O tempo passa lá fora;
não sei como, pois não estou lá.
E nem sei mesmo como passa o tempo cá dentro,
se anda célere ou devagar.


E o tempo cá dentro não existe,
o que existe é uma perene conversa; (que harmonia!)
pensamentos leves, emoções profundas,
cruzam minha alma com mui maestria!


O tempo é banal e apenas nasceu
da necessidade humana de se recordar.
Pois os anos passam, e ainda não sei
se o tempo cá dentro anda célere ou devagar.


Cá dentro só há luz,
e paz, e gosto, e prazer, e fascinação!
Contamos o tempo pelo soprar do vento,
ou pela batida dum coração!


Cá dentro, mergulhamos (pelo menos, eu mergulho)
num mar sem ondas, verde e cristalino!
Uma imensidão sem fim, verdadeiramente pura!
Pura como o olhar mais límpido.


Cá dentro é o lugar ideal
para se divertir e se deleitar.
E ninguém sabe a quantas está o tempo,
se anda célere ou devagar.


Por isso, criamos cá dentro o nosso tempo!
Reino da paz, gosto, prazer e fascinação!
Contamos o tempo pelo soprar do vento,
ou pela batida dum coração?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sombra libertina

A quarta-feira de cinzas está aqui. Mas por que se concentrar na tristeza e na saudade deixadas pelo fim do Carnaval? Agora que a festa da carne acabou, é hora de voltar para o mundo real e tentar mudá-lo, melhorá-lo. É essencial ter esperança na capacidade humana de transformar o meio. Com esse espírito, coloco aqui alguns versos:

Sombra libertina

Ao longe, na rua deserta
uma sombra no chão se firma
o Sol, o Céu e a Terra
sorriem para a tal libertina
que dança no asfalto, sem preocupação
os movimentos são poesia
a mais pura do coração
e seu dono, que viu que o Sol
para a sua sombra sorria,
pôs em movimento novamente
a querida sombra libertina
e a Manhã suspirava, e consigo dizia:
A libertinagem é o raiar
de um novo dia.
Deus abençoe essa sombra libertina!

Mas os homens que eram conservadores
e não viam a beleza da vida
(pois em suas vidas não havia amores)
censuravam a dançarina.
Achavam que a sombra
só por ter alegria
afrontava o universo róseo
que alguém um dia construíra.
E o Sol, o Céu e a Terra
com a Manhã concordavam, que dizia:
Deus abençoe essa sombra libertina!

E a sombra e o seu dono
não pararam de dançar
no asfalto das ruas às doces melodias.
E as Árvores, o Campo, o Verde
concordavam com a Manhã, que dizia:
A sociedade precisa
de mais sombras libertinas!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Evoé, Baco! Evoé, Momo! Evoé, Vênus! Evoé, Musa!

O livro está na mesa e o bloco está na rua! Carnaval chegou!
Evoco aqui Momo, Baco, Vênus, e a Musa da Poesia, os deuses do Carnaval. E evoco também o bardo Manuel Bandeira, que louvou a festa da carne em um belo poema chamado "Bacanal". Por que não colocar aqui o meu poema "A festa" ao lado de "Bacanal"? Essa será a minha oferenda aos deuses da folia, às escolas de samba, aos blocos de rua, a todos os foliões, aos mihares de arlequins, colombinas, pierrots, ninfas bacantes, anjos, diabos, índios, enfermeiras, doentes, noivas, piratas...!

A festa

Sorriam, todos vocês,
esta é a nossa festa!
Bebam quanto quiserem,
apreciem nossas bandas e orquestras.

Se vamos tocar valsa, meu senhor? Oh, não!
Se haverá o minueto francês? Absolutamente!
A erudição é um fantasma,
e a alegria, uma bela demente.

Não, não temos champagne francês,
nem vodka russa, eu lamento.
Bebam nossa cachaça
para acabar com o vosso tormento.

Esta noite será como uma estrela eterna,
como um fogaréu crepitante e vivo
que nunca se desfará em cinzas.
Esta noite é o cálice
da mais nobre alegria.


Bacanal

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
_ Vinhos!... o vinho que é meu fraco!...
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!

Evoé a todos!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Revolução

É essencial que todos tenham consciência de como a palavra é poderosa. Em um país como o Brasil, o reconhecimento do potencial da palavra é ainda mais crucial. O povo só se libertará quando perceber que a escrita traz o conhecimento, e que é preciso penetrar em seus segredos para mudar a realidade.
Deixo aqui um poema oportuno.

Revolução

A palavra destrói os grandes reinados
por trás de uma gota de sangue, tinta azul há.
A palavra que afaga, que sorri amiga,
é a mesma que pode chicotear.


Da coroa de ouro e de diamantes,
com punhais a palavra há de se armar.
A palavra destrói os grandes reinados
por trás de uma gota de sangue, tinta azul há.


Escrita em lágrimas ou em sorrisos,
nos olhos, na alma, estática jazerá.
Mas se a transcrevermos em uma folha amarelada,
rubros corações há de sangrar.


Espada de luz que nos banha em tormento,
riso febril que traduz sofrimento,
leais traidores a nos circundar.
A palavra que afaga, que sorri amiga,
é a mesma que pode chicotear.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Monotonia

Este poema foi escrito há anos, mas o sentimento que estes versos abrigam volta de quando em quando em meu espírito. Essa emoção retornou recentemente. Creio que todos vão se identificar com estes versos.

Monotonia

Da vida o sabor acre do conhecimento
de um universo antes me tão novo, sem igual
veio pungir-me a boca num lamento,
um soluço, um suspiro sepulcral.

Conhecer todas as pedras do caminho
e as grutas onde escondem-se os mistérios
dá-me uma intensa monotonia,
e minhas honras e meus méritos

que podem fazer? Vou-me embora,
explorar outro mundo de outra aurora
e meus olhos brilharão, ignorantes.
Ingênuos e doces como belas crianças,
tudo saberão, curiosos e vivos,
e eu irei embora como antes.

Bela Balada

Por que não fazer o caminho inverso? Vou desrespeitar a cronologia e colocar primeiro o último poema do meu livro. Afinal, o tempo deve servir à Arte! Carpe diem.

Bela Balada

Fazer sentir o vibrar da emoção,
e ser eterno o fugidio lampejo,
perenizar o bater do coração,
iluminar a luz de um triste beijo,

Enevoar o mundo na boa bruma
que se assemelha ao soprar do vento;
diferenciar cada um dos mil arquejos,
fantasmas com a corrente do tormento.

Nas palavras, pouco a pouco, construir
etéreo e diáfano refúgio,
de onde se veja o mundo com clareza
e onde se possa abrigar contra o Dilúvio.

Aprisionar emoções, momentos, não é esse o meu intento,
a intenção do poeta é a expansão;
Permitir, humilde, as sensações ocultas em suas palavras,
como uma música, viver em eterno movimento,
graça estrelar e, principalmente, transmutação.