sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Vórtices: entre o livro, a cruz e a espada

   Estou de volta. Sim, eu sei que saí sem avisar, e me ausentei por longo tempo, tudo isso devido ao fato de eu ter começado a cursar Direito na UERJ em agosto. Como já disse antes, no poema "Monotonia", eu precisava de um mundo novo para explorar, e devo dizer que o mundo uerjiano me sugou como um vórtice: vários textos interessantes e volumosos para ler, festas, amigos, provas... Mas não desejo me eximir de culpa: eu deveria ter avisado a vocês de que me ausentaria bastante, poucos e bons leitores desse blog. Cogitei mesmo fazer isso, mas terminei por sequer concluir a postagem de requerimento de licença poética pelo mesmo excesso de compromissos e cansaço, que existiu desde o instante em que entrei na UERJ.
   Mas agora voltei. Sei que logo o vórtice universitário me pegará de novo, mas agora que tive a chance de emergir por um breve período dele, vou falar de um outro turbilhão aqui: as eleições brasileiras.
   No primeiro turno, vimos vários candidatos mal articulados, com propostas vagas e utópicas, e não raro encontramos aqueles na prática abertamente corruptos. E agora?
   Agora chegamos ao segundo turno, de caráter exclusivamente presidencial, e ganhamos uma maldita surpresa: as eleições serão decididas pelos evangélicos, espíritas e católicos fervorosos. A controvérsia sobre a posição dos candidatos a respeito do aborto e do casamento gay dominou a cena política. Por quê, Deus? 
   Não é preciso ter uma visão para descobrir a resposta. O Brasil é um país em que a religião tem mais influência política do que na maioria das nações ocidentais. Não sejamos inocentes: em qualquer país do mundo, pareceres religiosos influenciam de alguma forma a política. A religião está enraizada na maior parte dos seres humanos, de tal forma que agem muitas vezes de acordo com ela. Mas essa influência, na maior parte do mundo ocidental, foi bastante reduzida, a ponto de não decidir eleições. O Brasil, mais uma vez, é exceção.
    Será que Dilma quer a legalização do aborto? Será que Serra é o verdadeiro candidato cristão? Infelizmente, essas se tornaram questões fundamentais para as eleições brasileiras. Por que se preocupar com coisas secundárias como distribuição de renda, melhores serviços públicos, políticas econômicas internas e externas? Bobagem! Vamos falar do respeito à vida dos fetos, mas não nos preocupemos com os que já saíram do útero materno e aqui vivem, nesse Brasil...
    Quando eu era criança, ficava entusiasmada com as eleições. Assistia todo o horário eleitoral e chegava a decorar as músicas de campanha de alguns candidatos. Agora que cresci, vejo que praticamente nenhum político brasileiro mereceu essa reação de uma pessoa. Isso vale para o momento atual principalmente. O triste é ver que muitos eleitores não cresceram, são crianças que ainda saem por aí com os olhos brilhando ao divulgarem seu messias. E uma coisa muito lamentável também é ver o nível geral da propaganda política.     
    Como se não bastasse a exposição vaga das propostas de governo (quando elas existem) e o ataque hiperbólico ao adversário, há sempre aqueles slogans ridículos e tentativas lamentáveis de criar empatia com o povo, que ultrapassou a esfera do "Jovem vota em jovem" e alcançou o nível de se contratar cabos e fantasiá-los de caixinhas de leite (estampadas com a foto de um certo candidato cujo sobrenome é Leite) para que eles dancem no sinal. Não preciso citar os nomes dos políticos que se prestaram a isso, os cariocas os conhecem bem...
      O pior é ver que o povo se presta a esse circo. E quanto mais nos afundamos em ignorância e desinteresse político, pior fica. Ao contrário do que disse o famigerado deputado eleito por São Paulo, pode ficar muito pior, sim.  
       Deixo aqui um poema meu, intitulado "Brasil". Apreciem a ironia...
      
Brasil
      
Ó terra dos quentes trópicos,

onde se sepultam sonhos utópicos

e objetivos surreais!

Tu és bela como a brisa marítima,

que faz voar os cabelos das raparigas,

e que sacode as folhas dos coqueirais!



Como um cravo que nasceu do fogo,

como uma estrela feita de ouro,

adejas neste céu anil!

Como um sabiá a cantar,

repousa, lânguido, sobre o mar,

tu és o nosso Brasil!



Ó Brasil tão cantado,

país tão famigerado,

aqui venho louvar-te!

Nos meus versos o homenagearei,

tal qual um grande rei,

que a seus pés venho prostrar-me!



E apesar das colossais impurezas,

possuis tantas belezas,

e virtudes sensacionais!

Brasil meu, és terra dos quentes trópicos,

onde se sepultam sonhos utópicos,

e objetivos surreais!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Alma romântica

  "Sou romântico? Concedo./Exibo, sem evasiva,/A alma ruim que Deus me deu."
  Esses são os três primeiros versos da segunda estrofe do poema "Sextilhas românticas", escrito pelo excelente Manuel Bandeira. Talvez você, leitor, esteja confuso, pois não era para o bardo ser modernista? Sim, ele é, mas isso não impede que Bandeira tenha recebido influências românticas, como esse e vários outros poemas (entre eles o famosíssimo "Vou-me embora pra Pasárgada" e uma versão de "Belo Belo") lindamente revelam.
  Alguns ainda acham, contrariando a clareza trazida pelo tempo, que o Romantismo brasileiro deve ser desprezado. Não digo que o Romantismo é melhor que o Modernismo, mas certamente aquele nos deu versos belos, e se influenciar textos modernistas ou contemporâneos positivamente, qual é o problema?
  O próprio Mário de Andrade, um dos mais importantes líderes do movimento modernista da primeira geração, ao longo do tempo, reconheceu que deve haver liberdade artística, e que escolas literárias passadas, como o Romantismo, podem sim influenciar o Modernismo com bons resultados.
  É nesse espírito que coloco aqui alguns versos meus que evidenciam a vertente romântica da minha alma. Um abraço para Bandeira e para Andrade!


Olhos vítreos 


Meus olhos são impuros, pois provém da mistura
de elementos diáfanos, translúcidos, surreais,
talvez não impuros, talvez somente sejam
um par de olhos irreais.


 Meus olhos são filhos do ar invernal,
ao mesclar-se com a superfície da água
pura, límpida, gélida, luzidia,
e desses dois com mil lágrimas diáfanas.


Não obstante, diamantes de fogo
teimaram, nesse feitiço, entrar,
tecendo, com desvelo, escassos fios de ouro
que quebram a tundra do meu olhar.


Estrelas de gelo, cometas errantes
perdidos na imensa e larga vastidão
dum Universo paralelo, criado por mim,
ou pelos caprichos do meu coração!


Assim são meus olhos;
como as calotas polares, ninguém irá adivinhar
que pulsa o sangue, explode o magma,
dentro do Vesúvio do meu olhar.


 Tênue coração


Meu coração pulsa doidamente,
febrilmente, ávido de emoção,
como uma criança a correr pela casa,
como o vento que uiva e corta qual uma navalha,
como se fosse uma sina, uma maldição!


Grande sonhador sem rumo certo,
com asas do tamanho do firmamento,
ainda voas pelos mais fascinantes lugares e desertos;
tuas asas não excedem teu sofrimento!


Encontra-se imerso na rubra inquietude,
que se transmite pelo meu olhar, o meu coração!
Uma doce fome pelos sentimentos da vida,
marcada pelo compasso instável de sua alegre pulsação!


Chamam-te tênue porque perdoas a teus inimigos,
não importando quantas vezes ousem te despedaçar!
Sorris calorosamente a desconhecidos,
não pensando que podes vir a agonizar.

Não chamo-te tênue; chamo-te forte,
como é forte um corajoso leão,
pois bravamente suportas o teu tormento,
pois ainda lutas, meu caro coração!


Não te tenho piedade; a misericórdia
é para os que, vencidos, se encontram desesperados;
ainda lutas, embora ensangüentado,
pelo mesmo mundo de que de ti riu!


És nobre e conserva essa nobreza,
como da prata há a eterna pureza,
às vezes alegre, às vezes triste!


És nobre, purpúreo, mas não te rebaixes nem curves
ao mundo que te acusa e que a ti ruge,
que te acusa injustamente com o dedo em riste!


O Poente

A tarde ia-se embora,
levando consigo as rosas,
que o Sol fez desabrochar!
As rosas, agora, eram outras,
no ar estavam soltas,
ao mundo iluminar!



Eram rosas, rubras e belas;
Eram flores, pálidas e singelas,

que, nas trevas, sozinhas, luziam!
E duvido que alguém percebesse, além de mim,
o cântico sem fim,
com que elas nos advertiam:
“Mortais, ouvi com atenção
o seu pobre coração,
para não serem como nós, sofredoras;
vivemos à Eternidade, sim, confessamos,

mas já fomos humanas e cem lágrimas derramamos,
estamos presas e não soltas;
Presas dentro de nós mesmas,
e apesar de sermos estrelas,
preferiríamos ter sido loucas”.


Afinal, esses raros primores
recusaram todos os amores,
que o Destino lhes oferecia;
Por medo, receio ou pânico,
viraram-se em puro pranto,
em estrelas esquivas.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Poesia metalinguística e auto-crítica

  Acordei hoje com um espírito metalinguístico e resolvi reunir aqui alguns belos versos que falam sobre a Musa e o poeta. Convido você, leitor, a comparar dois poemas meus dessa mesma temática: "Sopro de água", que aparece bem no início de "Coração in vitro", e "Bela Balada", os penúltimos versos do meu livro, que inclusive foram postados em fevereiro, mas que orgulhosamente retomo.

 Sopro de água

Minha pena dança sobre o alvor do papel
e nas palavras encontro o meu refúgio;
tirando dos meus olhos todo o pranto,
afogo-me de novo em um mar turvo.

Oh, pobre sofrimento inconstante,
que me mata e me deleita como a uma rainha,
pois, se da dor tiro eu esperanças,
de teu ventre geras alegria!

E somente quem se empenha, de todo,
na graciosa arte de escrever
sabe que o lodo pode ser perfume
ao mesmo tempo, mas a diferente ver.

E esta abundância que explode em minh’alma,
de belas rosas de emoções distintas,
dá-me sempre uma fugaz certeza:
hei de ser eternamente serva e rainha.


Bela Balada

Fazer sentir o vibrar da emoção,
e ser eterno o fugidio lampejo,
perenizar o bater do coração,
iluminar a luz de um triste beijo,

Enevoar o mundo na boa bruma
que se assemelha ao soprar do vento;
diferenciar cada um dos mil arquejos,
fantasmas com a corrente do tormento.

Nas palavras, pouco a pouco, construir
etéreo e diáfano refúgio,
de onde se veja o mundo com clareza
e onde se possa abrigar contra o Dilúvio.

Aprisionar emoções, momentos, não é esse o meu intento,
a intenção do poeta é a expansão;
Permitir, humilde, as sensações ocultas em suas palavras,
como uma música, viver em eterno movimento,
graça estrelar e, principalmente, transmutação.

  Sei que um escritor não deve comentar muito sobre seus próprios textos com os leitores, para que haja várias interpretações diferentes sobre a mesma obra, mas tenho que dizer que da criação de "Sopro de água" até "Bela Balada", evoluí bastante literariamente. Do nascimento daquele a esse transcorreram dois anos. No primeiro, o eu-lírico tem na Poesia o alívio e a retomada de suas dores, e entram em foco as contradições em sua alma; no segundo, o trabalho do poeta é abordado de forma mais completa, mais vibrante e ao final refuta-se a idéia de que aquele apenas cristaliza emoções sob a forma de palavras para conservá-las eternamente.
  Se alguém encontrar em minhas palavras outros sentidos, deixe um comentário e eu terei prazer em ler e responder (talvez até em outro post desse blog).



  Carpe diem!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lutando com palavras...

  Há pouco tempo assisti ao documentário "Encontro marcado com o cinema", de Fernando Sabino e David Neves. É um exemplo perfeito de diálogo entre diversas artes: o cinema e a literatura, com um pouco de música, entremeados de política.
  O filme começa com Manuel Bandeira, "O Habitante de Pasárgada". Essa parte é toda em preto e branco, e o poeta aparece solitário, primeiramente andando nas ruas, ao som de uma melancólica música clássica, e depois em sua despojada casa. O primeiro poema que o bardo recita é "Testamento", em que o poeta coloca um tom de lamento e fuga, mas em uma linguagem simples, o que mostra bem o Manuel modernista de alma romântica, lado seu que ele próprio reconhece em verso em outro texto. Mas Bandeira não se resume a isso, como vários outros versos evidenciam, embora seu desejo de fugir seja parte importante de sua lírica.
   Outro momento que me impressionou muito foi "O Fazendeiro do Ar", protagonizado por Drummond, o bruxo, cuja Poesia foi tão diversa e encantadora, que é difícil acreditar que a Musa possa ter sido tão generosa com um homem. O escritor, tímido e avesso a entrevistas, se abre de uma forma surpreendente, falando sobre vários assuntos importantes em sua vida. Além disso, não posso deixar de mencionar os dialógos entre um menino e a estátua de Drummond na praia de Copacabana, o que foi retirado de uma outra produção, "O menino e o poeta", na qual vários versos do bruxo são recitados por ele próprio.
  Entretanto, apesar de o bruxo e o bardo serem umas das minhas maiores influências poéticas, a minha parte favorita do filme foi aquela sobre Vinicius de Moraes, "Poesia, Música e Amor". Vinicius soube abraçar belamente a Poesia e a Música, artes irmãs, que nos tempos antigos eram uma só na voz dos aedos, que tocavam cítara e simultaneamente cantavam versos criados na hora. O que mais me impressionou foi a informação de que ele, aos seis anos, produziu seu primeiro poema, de estilo romântico e linguagem muito formal. Os versos foram dedicados a uma menina de sete anos, e o poetinha diz que desde o início se sentiu atraído por mulheres mais velhas.
   É claro que o documentário não se resume a esses três grandes artistas: há ainda "O Curso do Poeta" (João Cabral de Melo Neto), "Um Contador de Histórias" (Érico Veríssimo), "Na Casa de Rio Vermelho" (Jorge Amado), "Veredas de Minas" (João Guimarães Rosa),"Em tempo de Nava" (Pedro Nava), "Romancista ao Norte" (José Américo de Almeida), "O Escritor na Vida Pública" (Afonso Arinos de Melo Franco) e um extra, "Encontro marcado com Fernando Sabino" (dirigido por Bernardo Sabino, que não está disponível na Internet infelizmente).
    Certamente esse filme deve ser assistido por todos os amantes de literatura e de cinema. Ele nos aproxima muito de artistas ilustres que a minha geração não teve o prazer de conhecer pessoalmente, mas que são imortais em suas obras. Manuel Bandeira disse, em um poema, que duas vezes se morre; uma na carne, e outra na memória, no espírito. Mas isso não se aplica nem ao próprio poeta nem a todos os outros que apareceram nesse documentário.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Tributo a Saramago

    Ariano Suassuna disse em uma entrevista ao Globo há alguns anos que fazer Arte tem como propósito, em última análise, vencer a morte. Assim, Saramago, como Machado de Assis, Florbela Espanca, o próprio Suassuna, Gabriel García Márquez e tantos outros bons escritores, é imortal nas páginas de suas obras. Entretanto, José morreu na carne, que é o fim que nos espera democraticamente a todos.
  Saramago morreu na carne recentemente, e também recentemente (para ser mais precisa, domingo, no mesmo dia em que publiquei uma postagem sobre a morte do excelente escritor português) tive de levar meu irmão à missa. Essa tarefa, que pode ser considerada banal, me inspirou uma reflexão que coloco aqui, e que ofereço como tributo a José.
   Meu irmão está fazendo catequese católica, e tem que bater ponto na missa todo domingo. Ele é obrigado a ir aos cultos dominicais, e para fiscalizar o cumprimento dessa imposição, o menino tem uma carteira que precisa ser carimbada ao final de cada missa. É realmente encantadora a forma como seduzem as crianças a gostar da Igreja, e não a vê-la como uma fastidiosa obrigação, praticamente um trabalho chato. Afinal, religião é apenas labor, no sentido original da palavra, que veio do latim e significa "tortura".
   Mas a história ainda fica melhor. Durante a celebração do culto, a famosa cesta de doações passou, e na saída da missa, uma espécie de rede de pano colocada no final de um cabo de vassoura foi levada em direção à multidão que saía da missa para recolher mais dinheiro. Além disso, não posso me esquecer de mencionar a simpática bancada do dízimo, montada logo à entrada da igreja, na qual vi pessoas depositando dinheiro e registrando seus nomes.
   Entretanto, isso não é tudo. Não posso me esquecer de falar aqui dos lindíssimos cânticos compostos especialmente para "a missa com crianças". Todos eram uma obra-prima poética e filosófica. Gostei particularmente de dois cantos, o "Canto da Reconciliação", e "Vamos, irmão".
    O primeiro, assim como o segundo, é digno de ser entoado em um templo da Igreja Universal do Reino de Deus. Diz-se na primeira estrofe: "Se estás para trazer/a oferta até o altar/e ali te recordares: "Feri o meu irmão",/ deixando o donativo,/a paz vai reatar;/ depois tu voltarás,/farás tua oblação." É bom saber que doar dinheiro à Igreja é uma forma de obter o perdão divino pelo pecado, que prejudicou um irmão. Além disso, atentem para o fato de que, nos dois últimos versos, pede-se que o fiel volte posteriormente para dar mais dinheiro à Igreja, digo, a Deus. Esse octeto já seria suficiente para arruinar a música inteira, mas os compositores acharam melhor se certificarem disso na segunda estrofe, onde se fala: "Aquele que é injusto/e odeia é homicida,/porém se amar o irmão,/passou da morte à vida (2x)." Como alguém injusto, assassino e que tem ódio pode amar o próximo?
   O segundo canto, "Vamos, irmão", prega: "Se você tem fé fique de pé/Se você é irmão entre nesta procissão (2x)" Isso parece um axé, com as palavras sendo selecionadas de forma a obter rimas por alguém que não tem a menor criatividade nem o mínimo conhecimento de Português. Mas não podemos esquecer de exaltar a segunda estrofe desse lindíssimo canto, que nos fala: "Vamos, irmão, levante caminhe/com disposição, trazendo a sua oferta/de acordo com o seu coração." Depois desse belo terceto, há mais dois, que continuam pedindo doações. Inclusive, a quarta estrofe de "Vamos, irmão" diz ao final que se o fiel não tiver nada, deve oferecer o seu coração _ certamente um prêmio de consolação para a igreja; quem se importa com o coração dos fiéis? A chave de ouro vem nos últimos versos do canto, onde se diz que Deus não faz distinção, somos todos iguais e irmãos. Conclusão: se todos somos iguais e irmãos, todos devemos atender sempre ao chamado da igreja por mais riqueza material.
   Por que eu tenho a leve impressão de que já pediram muito dinheiro dos fiéis durante a missa, e que estão tratando isso como um assunto importantíssimo? Ah, esqueçam, esse pensamento deve ter sido inspirado por Lúcifer...
   Além disso, percebam: nunca dizem aos fiéis de forma clara para quê são usadas essas doações. E isso não é exclusividade apenas da igreja a que fui, mas vale para todos os templos católicos.
   E se por acaso uma igreja comete o pecado de não pedir excessivamente dinheiro dos ouvintes das missas, o padre dessa paróquia é castigado pela justa Santa Sé, sendo transferido para igrejas menores e menores... Isso aconteceu com um padre conhecido há várias décadas pela minha família, que se recusava a abusar monetariamente dos fiéis e que dava grande apoio espiritual aos paroquianos. Tive a sorte de ser batizada por ele, e fazer a minha primeira comunhão onde ele pregava.
    Por tudo isso, trabalhar na Igreja Católica está se tornando uma alternativa atraente para o pessoal que se desilude com a Universal. Afinal, às vezes é lucrativo fazer o caminho inverso, não?
    Deixo aqui um poema meu, "Mentiras", caso me acusem de estar mentindo, mesmo contrariando toda a luz da razão.

Mentiras

Mentiras são verdades renegadas;
mentiras são rompantes de lágrimas;
mentiras são frágeis rosas, falsas estrelas,
pedras mais brilhantes que o Sol.
Mentiras nos desfalecem nos dedos
e em luz se transformam.
Há mentiras, porém, enraizadas,
emaranhadas sob solo pedregoso
no misterioso vácuo de nossas mentes
e que consideramos a Real Felicidade.
E as minhas mentiras, o que são?
Uma vez meu pai me disse:
“Qual mentira tu contaste a tua mãe?”
“Contei várias _ respondi, orgulhosa._
Pois minhas mentiras são
Verdades Desafiadoras.”

domingo, 27 de junho de 2010

A morte de Saramago

  "De Deus e da morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas."
     Essa é uma frase retirada da página 146 do romance "As Intermitências da Morte", do maravilhoso escritor português José Saramago, que faleceu no dia 18 de junho, aos 87 anos.
      "As Intermitências da Morte", escrito por Saramago aos 83 anos, conta a história da morte, que, farta de ser odiada pela Humanidade, decide fazer uma greve. Ninguém mais morre. Mas o que a princípio deveria ser uma bênção, acaba se revelando uma maldição, e solicita-se a volta da morte a seu trabalho. Ela retorna, mas modifica algumas regras: as pessoas recebem uma carta da dama sete dias antes de morrerem, para que possam resolver seus assuntos pendentes. Os versos de Mário Quintana tornam-se obsoletos nesse contexto de Saramago: "A vida é uma estranha hospedaria/ De onde se parte quase sempre às tontas/ Pois nunca nossas malas estão prontas/ E nunca nossas contas estão em dia."
   Mas esse não é o fim do romance. A morte termina por ser encontrar com um tímido violoncelista, ao qual teve de pessoalmente entregar sua carta, que sempre acabava voltando para ela... E desse encontro a dama sai surpresa...
    Certamente a morte também se surpreendeu ao encontrar o autor dessa e de tantas outras obras fabulosas. Não podemos saber a reação da dama, mas todos os que ficaram do lado de cá lamentaram a passagem de Saramago, até mesmo a Igreja Católica de Portugal, apesar de ele ser ateu e crítico mordaz da instituição. Os padres que se pronunciaram a respeito foram respeitosos, o que prova que ainda podemos nos surpreender positivamente com a Igreja. O link que mostra isso é: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2010/06/igreja-catolica-de-portugal-lamenta-morte-de-saramago-ateu-e-critico.html. Entretanto, por muitas vezes, Saramago foi duramente criticado pela Santa Sé enquanto vivia, o que não deve ser esquecido.
    Não podemos esquecer tampouco que Saramago também criou controvérsias com a comunidade judia, chegando a ser acusado de "anti-semita", por declarar que os judeus não aprenderam nada com o sofrimento de seus pais e avós no holocausto, usado como desculpa para justificar tudo que fazem. Os defensores do intelectual declararam que ele se referiu apenas à política israelense, que é muito agressiva em relação à Palestina. Saramago falou amplamente sobre essa questão, criticando bastante a atitude desumana de Israel.
    Há muito ainda o que falar sobre o escritor, que, além de romancista, foi jornalista, cronista, contista e poeta. Porém, prefiro, em vez de continuar falando sobre sua biografia, deixar aqui um poema de Florbela Espanca, uma das maiores poetas portuguesas e uma de minhas grandes influências. Infelizmente, José tinha oito anos quando Florbela morreu, de modo que nunca puderam trocar opiniões. Mas quem sabe agora no Além eles não podem se encontrar?
   Boa noite, José.
  
À morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte, dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo,
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moraima, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A volta da escritora

  Finalmente volto a atualizar esse blog, que negligenciei por causa de outras preocupações profissionais. E nesse momento tento me concentrar apesar do barulho incessante das vuvuzelas. Mas me recuso a falar sobre a Copa, e mesmo sobre o assunto das minhas últimas postagens, Política. Sou uma artista engajada, mas não apenas isso. Hoje a minha Poesia será apenas lírica.
  Há quase um mês, fui assistir um filme que merece ser chamado de perfeito, sem o menor risco de hipérbole, "O segredo dos seus olhos". Este é argentino, e ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. "O segredo dos seus olhos" tem uma história cativante, um ritmo e uma forma narrativos muito atraentes, e ótimos atores. Não é um simples filme policial, mas um tratado apaixonante sobre a alma humana, que transparece nos olhos.
  Lembrei-me, assim, de um poema meu, acerca de um par de olhos amigos que ficou no meu passado. Não creio que o seu dono tenha consciência de me ter inspirado esses versos, e certamente ele não aprecia Poesia. E já nem recordo mais seu nome. Mas mesmo assim, sou grata a ele por ter cedido, sem saber, seus olhos para a Musa.


Olhos cor-de-mar

Teus olhos têm uma cor,
que eu mesma não sei explicar.
Não são azuis, verdes ou pardos,
acho que são olhos cor-de-mar.

Eu vejo ondas, em teus olhos, gigantes,
a desmantelarem-se em rochedos, no cais;
feitas de raiva, de ódios, de amores
e de sentimentos paradoxais.

Eu vejo paz, paz em teus olhos,
como diamantes a cintilar;
um arco-íris de várias cores,
em teus olhos cor-de-mar.

Como o mar, teus olhos
nunca se mantêm estáveis;
são inconstantes e puros,
(verdadeiramente amáveis).